BRASIL E MUNDO — Abertura
O espetáculo encenado no Supremo Tribunal Federal entregou exatamente aquilo que qualquer observador cético da burocracia estatal já esperava. Convocaram uma sessão extraordinária que supostamente definiria a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes, mas o resultado prático foi uma verdadeira aula de malabarismo procedimental. Em vez de prestação de contas, assistimos à velha tática do corporativismo público: adiar, enrolar e criar cortinas de fumaça regimentais para blindar os seus próprios membros.
Quando o establishment percebeu que o placar poderia escapar do controle e que a abertura do procedimento se tornava iminente, entrou em campo o roteiro clássico de contenção de danos. Flávio Dino pediu vista do processo e suspendeu todo o andamento. Na prática, o STF decidiu que não vai decidir absolutamente nada por enquanto, empurrando qualquer desfecho para depois do período eleitoral. O cidadão que sustenta essa estrutura caríssima segue assistindo ao tribunal operar como um clube fechado e imune a cobranças.
BRASIL E MUNDO — Desenvolvimento
A manobra começou com uma questão de ordem levantada por Gilmar Mendes, que pretendia fundir a análise sobre Alexandre de Moraes com o caso de André Mendonça, pautado para a semana seguinte. A intenção de tumultuar o rito e criar uma falsa equivalência jurídica ficou evidente desde o primeiro minuto. Moraes enfrenta acusações diretas com mensagens periciadas pela Polícia Federal e menções a contratos milionários ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro. Já Mendonça responde por divergências hermenêuticas e atos de ofício dentro do processo. Tratar casos tão flagrantemente distintos como farinha do mesmo saco é um insulto à lógica mais elementar.
Para tornar o enredo ainda mais bizarro, Edson Fachin permitiu que o próprio Alexandre de Moraes votasse na sessão em que seu próprio destino estava em debate. Em qualquer organização privada com o mínimo padrão de governança, o indivíduo sob suspeita é afastado sumariamente da mesa de deliberação. No monopólio estatal da justiça, contudo, o investigado ajuda a ditar as regras da sua própria blindagem. Essa aberração institucional só foi superada pela postura de Cássio Nunes Marques, que se declarou impedido de forma repentina, abandonando o plenário e enfraquecendo o quórum que poderia levar a uma apuração rigorosa.
Os bastidores desse recuo de Nunes Marques revelam o nível de degradação interna do tribunal. O colunista Lauro Jardim e outros veículos expuseram trocas de mensagens ríspidas em que Gilmar Mendes pressionou diretamente o colega, exigindo que ele se afastasse do caso e abrisse suas contas bancárias, antes de ser sumariamente bloqueado no aplicativo de mensagens. Quando magistrados de cúpula lavam roupa suja desse nível através de vazamentos para a imprensa, o mito da respeitabilidade institucional desmorona por completo. Restou evidente que Nunes Marques preferiu fugir da votação a enfrentar a devassa sobre suas próprias relações.
Ao analisar o cenário pelo viés pragmático da opinião pública, Lauro Jardim acertou em cheio ao pontuar que, se o tribunal varrer essa sujeira para debaixo do tapete, a oposição política é quem tem motivos reais para comemorar. O STF optou por expor suas entranhas ao país inteiro para proteger um aliado. Quando os ministros invocam o devido processo legal e o respeito às garantias para salvar a si mesmos, produzem uma hipocrisia escandalosa. Onde estava essa preocupação jurídica refinada nos inquéritos políticos sem fim ou nas penas desproporcionais aplicadas a manifestantes comuns sem foro por prerrogativa de função?
O pedido de vista de Dino garante até noventa dias de gaveta, exatamente a janela necessária para atravessar o pleito sem sobressaltos internos. Eles acham genuinamente que o pagador de impostos não percebe o truque montado para adiar a fatura. Essa tentativa desesperada de autoproteção funciona como combustível eleitoral para qualquer candidatura que prometa frear o ativismo judicial e pautar o impeachment de ministros no Senado Federal. Ao tentarem sufocar o incêndio por vias burocráticas, os magistrados apenas aumentaram a indignação popular contra a corporação.
O desespero evidente da cúpula judicial decorre da perda progressiva de controle sobre a própria narrativa. Por anos operaram acreditando que canetadas monocráticas e intimidações calariam o escrutínio público indefinidamente. Agora que relatórios técnicos da polícia e contratos comprometedores vieram à tona, a única saída encontrada foi a chicana processual explícita. Falam devagar, enrolam nos votos e suspendem sessões porque sabem que, no mérito factual, não existe defesa técnica viável para os abusos acumulados nos últimos anos.
BRASIL E MUNDO — Fechamento
Diante dessa palhaçada institucional, vejo muita gente exaltada pedindo rebelião física e dizendo que o país precisa adotar o modelo do Nepal. Tenham muito cuidado com essas ilusões revolucionárias. Quebrar prédios e queimar ruas não resolve absolutamente nada; o próprio Nepal assistiu aos velhos corruptos retomarem o poder executivo logo após a poeira baixar, deixando a mesma merda de sempre para a população pagar a conta.
A agressão física apenas fortalece o monopólio da violência e dá pretexto para mais repressão estatal. A única vitória duradoura contra essa oligarquia jurídica decorre do desmonte da sua legitimidade moral e da disseminação maciça de ideias de liberdade. O sistema perde força quando a população compreende que o Estado não é a solução, mas a origem de toda essa podridão.