BRASIL E MUNDO — Abertura

Após decisões revoltantes no Judiciário e manobras para proteger políticos no poder, muita gente começou a clamar pela nepalização do Brasil. A tentação de promover protestos violentos, incendiar prédios públicos e expulsar burocratas à força virou o desabafo perfeito de quem não aguenta mais o teatro estatal. Eu entendo perfeitamente a indignação do cidadão pagador de impostos. Mas antes de abraçar a fúria irrefletida como remédio, precisamos analisar friamente o que mudou no Nepal um ano após o levante que derrubou o governo.

Manifestações massivas de rua são excelentes para expor a podridão do sistema. Contudo, revoltas baseadas em quebra-quebra desordenado costumam entregar resultados pífios. A experiência nepalesa nos mostra com clareza que incensar palácios e depor um primeiro-ministro não passa de um show passageiro se a engrenagem coercitiva do Estado continuar intocada no dia seguinte.

BRASIL E MUNDO — Desenvolvimento

Para entender o contexto, em setembro de 2025, o Nepal explodiu em manifestações violentas desencadeadas pela censura estatal. O então primeiro-ministro Oli resolveu proibir diversas redes sociais no país para sufocar as críticas da população. A gota d'água foi a ostentação obscena dos filhos da elite política, que exibiam luxo, festas e carros caros enquanto a população sofria com a inflação e o desemprego. Quando o povo passou a ridicularizar os herdeiros do poder, a resposta do leviatã foi a canetada autoritária. A população tomou as ruas, invadiu palácios e forçou a renúncia do governante.

Aquele levante resultou em eleições gerais onde mais de cento e vinte novos partidos disputaram as cadeiras do parlamento. A eleição deu a vitória ao partido liderado por Balendra Shah, um antigo rapper e ex-prefeito de Katmandu que se projetou como o grande símbolo da renovação política contra a corrupção e o nepotismo. A juventude e os trabalhadores acreditaram genuinamente que a troca de nomes no topo do executivo representava o fim da extorsao burocrática. No entanto, a realidade do poder estatal cobrou seu preço quase imediatamente.

Hoje, exatamente seis meses após a posse do novo governo e um ano após o levante violento, a pergunta incômoda permanece: o que realmente mudou para o cidadão comum no Nepal? A resposta é dolorosa: quase nada. A elite política tradicional foi temporariamente afastada, mas o novo primeiro-ministro precisou fazer concessões imediatas às oligarquias para conseguir governar. A corrupção sistêmica continua firme e forte, pois a estrutura estatal não foi desmantelada. Eles simplesmente trocaram os operadores do sistema, mantendo o balcão de negócios funcionando perfeitamente.

O grande erro da população foi esquecer que o Estado não é apenas a figura do primeiro-ministro ou dos deputados de plantão. O governo real é formado por uma burocracia entrincheirada e inamovível de funcionários públicos que não mudam com eleições. É nessa máquina administrativa, repleta de privilégios e sem qualquer incentivo de mercado, que a corrupção reside estruturalmente. Mudar o síndico do prédio não resolve se a fundação da estrutura está apodrecida. O nepotismo e as trocas de favores continuam ditando os rumos do Nepal.

Qual a lógica de arriscar a própria vida em conflitos de rua se o resultado final é apenas a substituição de uma quadrilha burocrática por outra? O Nepal viu palácios queimados e dezenas de feridos para no fim entregar promessas vazias de reformas legislativas que nunca saem do papel. Os novos líderes do executivo sequer priorizam a desregulamentação da economia ou o enxugamento do aparato estatal. Sem desmantelar o monopólio da violência e os incentivos perversos da burocracia, a dita revolução virou apenas uma reforma de fachada.

Essa ilusão da violência irrefletida me lembra os eventos do oito de janeiro no Brasil. Aquela invasão desastrosa dos prédios públicos em Brasília não trouxe um único ganho para a liberdade individual. Pelo contrário, descarregar a raiva quebrando vidraças deu de presente ao regime a justificativa perfeita para aparelhar o Judiciário, perseguir opositores e implantar uma censura ainda mais brutal. A revolta desordenada destruiu a oportunidade real de um movimento articulado de impeachment e fortaleceu a oligarquia que fingia combater.

A verdadeira mudança não ocorre pela destruição física imatura, mas sim pela alteração profunda na mentalidade da sociedade e pela estratégia política fria. No Brasil, o engajamento do cidadão comum em entender os mecanismos de extorsão do Estado é crucial. Precisamos usar a política de forma pragmática para derrotar o projeto autoritário vigente, garantindo vitórias eleitorais decisivas que barrem o avanço do leviatã. O foco estratégico é desmontar a narrativa estatal e retirar o poder das mãos dos tiranos de toga e dos burocratas de gabinete.

BRASIL E MUNDO — Fechamento

Em suma, a nepalização violenta é uma armadilha emocionante no curto prazo, mas desastrosa na prática. Queimar patrimônio público não reduz impostos, não diminui a burocracia e não garante liberdade individual; apenas gera desculpas para mais controle estatal. A única via eficiente para estrangular o monstro burocrático é retirar o seu oxigênio: questionar a legitimidade do imposto, expor a incompetência dos burocratas e construir alternativas descentralizadas fora do alcance das garras do governo.

Portanto, canalize a sua indignação legítima com inteligência e estratégia pragmática. Deixe o desespero violento para quem não entende como os incentivos do poder funcionam. Aqui quem fala é Peter Albuquerque para o Webjornal Vale da Liberdade. Inscreva-se no canal, deixe o seu like e continue questionando o monopólio da coerção estatal. Até a próxima!